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Este microbook é uma resenha crítica da obra:
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ISBN: 978-1-4711-5407-2
Editora: Simon & Schuster UK Ltd
Imagine o silêncio. Não o silêncio comum, mas aquele que pesa como concreto molhado sobre os ombros de onze homens dentro de um vestiário em Barcelona, julho de 1982. O Brasil acabou de perder por 3 a 2 para a Itália de Paolo Rossi, no estádio Sarriá, e o futebol mais bonito do mundo está morto antes do apito final da Copa. No centro daquele luto coletivo, um gigante de barba e olhar cansado caminha entre os companheiros, apertando ombros, pedindo que ninguém procure culpados. Ele se chama Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
Você talvez conheça o capitão de 82, o homem do passe de calcanhar, o líder da Democracia Corintiana. Mas conhece o médico que abandonou o consultório? O filho de um autodidata pobre que lia filósofos gregos à luz de lampião? O ídolo que falhou um pênalti contra a França e desabou num quarto de hotel em 86? O alcoólatra que previu a própria morte num domingo de glória corintiana?
Nas próximas páginas, você vai entrar na mente de um dos seres mais contraditórios que o esporte brasileiro produziu. Um homem que usou a bola para enfrentar a ditadura militar e, ao mesmo tempo, foi devorado pelos próprios demônios fora das quatro linhas.
Antes de ser Doutor, Sócrates foi filho de Seu Raimundo, um funcionário público humilde de Ribeirão Preto que aprendeu sozinho a ler Platão, Eurípedes e Homero. Foi Seu Raimundo quem batizou o garoto com o nome do filósofo, e foi ele quem impôs uma regra inegociável dentro de casa: estudo vinha antes da bola. O menino crescia entre livros emprestados e uma estante que o pai construiu com as próprias mãos.
Quando o talento começou a aparecer no Botafogo de Ribeirão Preto, Sócrates já estava matriculado em medicina. A rotina era brutal: aulas pela manhã, hospital à tarde, treino à noite. E foi exatamente essa exaustão que esculpiu seu estilo único. Magro, lento, avesso ao contato físico, ele precisava economizar cada gota de energia. Inventou então o passe de calcanhar e o futebol de um toque como uma forma elegante de jogar correndo menos. Genialidade nascida de uma preguiça consciente.
Foi nessa mesma época que apareceu o primeiro companheiro silencioso de sua vida adulta: o álcool. Tímido crônico, ele descobriu que a cerveja afrouxava a língua nos vestiários e nas mesas de bar. Quando o Botafogo venceu o primeiro turno do Campeonato Paulista, Sócrates já era estrela. Alheio à ditadura militar que apertava o país, ainda enxergava o mundo pela janela do consultório que sonhava abrir.
Em 1978, ele pausou a medicina e desembarcou no Corinthians. O choque foi brutal. Trocou a calma de Ribeirão pela megalópole e por uma torcida que cobrava como se cobrasse a alma. No comando do clube estava Vicente Matheus, dirigente folclórico, autoritário, dono de frases tortas e métodos ainda mais tortos. Tratar atleta como gente pensante não estava no vocabulário da casa.
Foi ali que algo despertou. Sócrates começou a questionar. Por que o jogador não tinha voz? Por que era tratado como mercadoria? A convocação para a seleção, e a parceria imediata com Zico já na Copa América de 1979, deu a ele o palco e a legitimidade para enfrentar as estruturas. E ele enfrentou do seu jeito: gravou o disco sertanejo Casa do Caboclo sem ter qualquer talento para cantar, só porque queria. Recusou-se a comemorar gols como protesto contra a cobrança excessiva da arquibancada e o desprezo da diretoria.
Não era teimosia adolescente. Era manifesto. O médico que virou jogador estava avisando ao Brasil que não pretendia se curvar diante de ninguém, nem de presidente de clube, nem de torcedor, nem de general.
Quando Telê Santana assumiu a seleção, encontrou em Sócrates o capitão perfeito. Um intelectual no meio de campo que organizava genialidades de Zico, Falcão, Júnior e Éder durante a turnê europeia de 1981. O Brasil voltou daquela viagem como favorito absoluto ao mundo. Mas a revolução de Sócrates não estava no estádio. Estava no vestiário.
Ao lado do diretor Adilson Monteiro Alves e do lateral Wladimir, ele criou a Democracia Corintiana. Cada decisão do clube era votada. O voto do faxineiro pesava o mesmo que o do craque. O mesmo que o do presidente. Decidiram, juntos, pelo fim da concentração obrigatória antes dos jogos, argumentando que adultos sabem cuidar das próprias noites. Decidiram horários de treino, contratações, prêmios.
Em pleno regime militar, dentro de um dos maiores clubes do país, funcionava um microcosmo de gestão horizontal. O futebol virou arena explícita de conscientização política. E o Brasil, que vivia sob censura, assistia àquilo de boca aberta.
Para chegar inteiro à Copa de 1982, Sócrates fez o impensável. Largou o cigarro. Reduziu drasticamente o álcool. Treinou como nunca havia treinado. Queria estar no auge para liderar aquela seleção, que jogava num estilo que ele mesmo chamou de caos organizado: liberdade total, criatividade, movimentação sem amarras táticas.
A Copa do Mundo de 1982 começou como um sonho. Argentina varrida, Escócia humilhada, União Soviética batida. O mundo se rendeu. Até chegar a tarde de 5 de julho, em Barcelona. A derrota de 3 a 2 para Itália entrou para a história como a Tragédia do Sarriá, o fim oficial do futebol arte.
E aqui está talvez o gesto mais filosófico da vida de Sócrates. Ele não culpou Telê. Não culpou a postura ofensiva. Não procurou bode expiatório. Aceitou que o futebol bonito nem sempre vence, abraçou os companheiros e seguiu em frente. A derrota doeu, mas não corrompeu sua fé no jogo livre.
De volta ao Brasil, o movimento corintiano explodiu. O bicampeonato Paulista em 1982 e 1983 veio acompanhado de mensagens políticas na camisa: "Democracia", "Dia 15 vote". O Corinthians entrava em campo como manifesto ambulante. Sócrates virou figura nacional, debatendo o país em programas de televisão, escrevendo, opinando.
Mas o homem racional vivia uma vida íntima em chamas. O caso tórrido com a cantora Rosemary virou escândalo, abalou o casamento com Regina e expôs uma contradição que ele nunca resolveu: pregava coletivo enquanto destruía o próprio núcleo familiar.
Dentro do clube, a utopia começou a rachar. A chegada do goleiro Leão, conservador e avesso à bagunça democrática, criou um foco ativo de sabotagem. Votações eram manipuladas pelo núcleo influente para garantir contratações. A credibilidade da gestão compartilhada se desgastava por dentro, exatamente como Sócrates se desgastava por fora.
Em 1984, Sócrates subiu num palanque diante de um milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú e fez a promessa mais cara da sua vida: se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada no Congresso, garantindo eleições diretas para presidente, ele recusaria a proposta milionária da Fiorentina e ficaria no Brasil. A campanha Diretas Já! Era, para ele, o último capítulo necessário antes de se sentir livre.
A emenda foi derrotada no Congresso. A vontade popular foi engavetada. Sócrates desabou. Cumpriu a palavra ao contrário do que sonhava: arrumou as malas e embarcou para Florença, decepcionado com o país.
A Itália foi um inferno particular. O inverno congelava o brasileiro acostumado ao calor de Ribeirão. O rigor tático europeu sufocava o homem do caos organizado. Sua aproximação com o Partido Comunista Italiano chocou diretores conservadores. Daniel Passarella, capitão argentino do elenco, virou desafeto público por causa das divergências políticas. Sócrates queria voltar. E voltou.
De regresso ao Brasil, vestiu a camisa do Flamengo ao lado do velho parceiro Zico. Sonhou reviver 82. As lesões crônicas na coluna não deixaram. Chegou à Copa do Mundo de 1986 no México como sombra do que tinha sido. Nas quartas de final contra a França, bateu o primeiro pênalti da disputa. Mandou no meio do gol, num chute mole, e Joël Bats defendeu. O Brasil caiu. Aquela foi sua despedida melancólica da seleção.
Fora de campo, a vida desmoronava em outra frente. Sócrates abandonou Regina e os filhos de forma abrupta para morar com a jovem tenista Silvana Campos. Seguiu jogando por curtas passagens pelo Santos e pelo Botafogo-SP, mais como atração midiática do que como atleta. O corpo cedeu antes da vontade. E quando o apito final chegou, sobrou o pior dos adversários: o vazio.
Sem a bola, Sócrates tentou ser muita coisa. Treinador no Botafogo-SP, depois na LDU do Equador, depois no Cabofriense. Em todas, o mesmo padrão: estilo permissivo, falta de paciência para burocracia, perda rápida de interesse. Tentou voltar à medicina, abriu uma clínica esportiva, mas se chocou com a ética questionável de colegas e abandonou tudo.
Aceitou ser Secretário de Esportes de Ribeirão Preto pelo PT, flertou com a política institucional, virou cronista e comentarista de televisão. Faltava em compromissos, esquecia entrevistas, vivia entre boemia e divagação. Sua filosofia de viver só o momento começou a cobrar juros impagáveis.
Nos últimos anos, o álcool tomou conta. Veio o diagnóstico de cirrose hepática, que ele teimosamente ignorou. Internações em UTI por hemorragias digestivas, comas, alertas médicos severos. Nada o demoveu. Em dezembro de 2011, num domingo, sofreu o choque séptico final. No mesmo dia, o Corinthians era campeão brasileiro. Anos antes, ele havia previsto: queria morrer num domingo de vitória do clube do coração.
A genialidade de Sócrates transbordou o gramado e também transbordou o homem. A mente libertária consumida pelo copo, o líder coletivo que feriu a própria família, o filósofo que cumpriu a profecia ao morrer em domingo de glória corintiana. Ele provou que o esporte pode moldar uma sociedade. E que nenhum gênio escapa de si mesmo.
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